Billy Elliot – O Musical

Nunca fui ao vivo assistir a algum musical – talvez pelos poucos que chegam aqui e por não ter a oportunidade de viajar e ir até São Paulo ou Nova York ver as grandes produções. Entretanto, sempre assistir suas versões hollywoodianas ou às gravações dos lotados teatros. Recentemente, depois de descobrir que Hairspray (que tem uma grande lição de moral no fundo) estava no catálogo da Netflix, fui surpreendido que Billy Elliot também se fazia presente por lá. Dei play sem me dar conta da duração – 2h49min – e comecei a assistir. Já havia escutado falar, sabia brevemente do que se tratava, mas não estava com esperanças de gostar tanto quanto eu gostei.

Gostaria de começar dizendo que não é uma grande produção cinematográfica, afinal, foi gravado no Victoria Palace Theatre, em Londres, um grandioso teatro da capital inglesa. O musical foi inspirado num filme – que não cheguei a assistir – e adaptado para este mundo onde música e atuação se misturam na contação de histórias. A história já começa nos ambientando em cenário e época, mostrando a greve dos mineiro de carvão de 1984 e mostra nosso protagonista, Billy, de 11 anos, que mora basicamente com a avó, mas também divide parte da vida dele com o seu pai, irmão e demais pessoas do Condado de Durham. Ele deveria fazer aulas de boxe semanal, mas acabou se encantando pelas aulas de balé da Sra Wilkinson, que ele pratica sem que ninguém de sua família saiba – por causa de todo o preconceito com homens praticando a dança.
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Aí já temos 2 coisas que englobam algo que eu gosto dos musicais: a maioria passa alguma mensagem por trás, mostrando coisas da nossa sociedade envolvidas na trama e fazendo críticas por meio das músicas. A avó de Billy conta sobre a relação abusiva que sofria com seu marido – já falecido – e sobre como ela gostava de dançar. Michael, melhor amigo de Billy, canta sobre gostar de se vestir de mulher na música “Expressing Yourself” (Se expressando). A música fala sobre se vestir como quiser, ser quem quiser. O refrão entoa “Se você quiser ser mineiro, mine! Se você quiser ser dançarino, dance! Se você quiser se vestir como outra pessoa, tudo bem” o que, apesar da época, é um assunto recorrente nos dias atuais, é só pensar nas questões LGBTs debatidas. A relação dos dois amigos é mostrada que não é preciso ser gay para dançar balé – aquele velho estereótipo que precisa ser desconstruído – e que, se você se sente confortável usando roupas do “sexo oposto”, tudo bem, você pode ser o que quiser. Antes que eu me esqueça, vale lembrar que as músicas foram escritas por ninguém mais, ninguém menos que Elton John.
Outro ponto que achei muito relacionável – existe essa palavra? – com os dias de hoje é a questão da greve dos mineiros, protestando contra o fechamento de diversas minas de carvão que deixariam diversas pessoas desempregadas. É só abrir o jornal e ver que estão tendo diversos protestos e greves por aí. Fechamento da TVE, FM Cultura, FEE e outros mais que estão com futuro incerto no Rio Grande do Sul, correndo o risco de deixarem de funcionar e causando o mesmo transtorno que é mostrado no musical – lembrando que a história e a greve dos mineiros se passa entre 1984 e 1985. Logo no início do segundo ato – após a “Angry Dance” (Dança Brava) de Billy -, em meio a uma comemoração de Natal, o elenco canta “Happy Christmas, Maggie Thatcher” (Feliz Natal, Maggie Thatcher), uma música contra a primeira-ministra da época, Margaret Thatcher, uma das responsáveis pelo possível fechamento das minas. Na letra, eles falam sobre ser um feliz natal por estar um dia mais próximo da morte dela – que só veio a acontecer em 2013. Quase que um grito de Fora Temer dos dias de hoje, pode-se dizer.
Em meio a tudo isso, nosso querido Billy Elliot sofre os preconceitos de sua família e comunidade por ser garoto e estar fazendo balé. Ele é obrigado a largar, apesar de ter dom para a dança, e faz aulas clandestinas com a professora. Ele luta pelo que realmente gosta e tenta uma vaga na Royal Ballet School, uma das principais escolas de balé do mundo. Não quero dizer o que acontece, mas essa parte acaba sendo essencial para a história – há briga com a família, especialmente seu pai, há toda a história de que ele não quer abandonar o balé, que ele quer “ser quem ele realmente é”, como já havia cantado com Michael.
O musical é de 2005 e gira em torno de uma história que se passa num tempo bem diferente e, mesmo assim, consegue ser bastante atual. Quando se para para assistir um musical assim – assistir de verdade, não para passar o tempo -, dá para notar todas essas nuances e detalhes que nos mostram coisas que deveríamos debater mais e dar o valor necessário, além de coisas que acabam sendo “tempestade em copo d’água” sem ser. “Billy Elliot – O Musical” termina com Finale e retoma uma estrofe da música que Billy e Michael cantaram juntos enquanto falavam sobre usar roupas de mulher, e o elenco acaba se misturando – bailarinos e mineiros – e mostrando todos se aceitando e em união. E acho que não tem nada mais justo do que terminar esse texto assim também. Acho que é aquele tipo de estrofe pra pensar bastante e levar pra vida.
Everyone is different,                                      Todos são diferentes,
its a natural thing,                                                          é algo natural,
its a fact,                                                                                     é um fato,
its plain to see,                                                                  é claro de ver,

The world is grey enough,                        O mundo é cinza demais,
without making it worse,                                                    sem piorar,
we need individuality.                    precisamos de individualidade.

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